Willy Wonka: bizarra exposição em Glasgow vira caso de polícia. Entenda

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Se você já foi em uma daquelas experiências imersivas de shopping e achou que não valeu o dinheiro, saiba que podia ser (muito) pior. Em Glasgow, na Escócia, um evento inspirado na Fantástica Fábrica de Chocolate prometia “uma jornada repleta de criações maravilhosas e surpresas encantadoras a cada passo”. Só que o resultado final passou longe disso. 

Chamada de Willy’s Chocolate Experience, o tal evento consistia em uma caminhada de apenas cinco minutos com um castelinho inflável, um arco-íris, pôsteres pregados em paredes e um monte de mesas espalhadas por um armazém abandonado.

Localizado em um galpão em Glasgow, o evento tinha poucos objetos de decoração para o tamanho do lugar. (Stuart Sinclair via Facebook/Reprodução)

O evento foi organizado por uma empresa com sede em Londres chamada House of Illuminati. O site do projeto está repleto de anúncios com textos vagos e imagens geradas por inteligência artificial que não retratam qualquer parte do evento em si. A House of Illuminati também não tem relação com a Warner Bros, que recentemente lançou Wonka, filme sobre o personagem criado pelo escritor Ronald Dahl.

Pagando 35 libras (cerca de 220 reais) por cada ingresso, famílias compareceram ao endereço do evento, que aconteceu nos dias 24 e 25 de fevereiro. Lá, as crianças eram divididas em grupos para percorrer o local. O passeio, que era planejado para durar de 45 a 60 minutos, levava menos de cinco.

Ao entrar no galpão, as famílias se deparavam com fileiras de mesas de refeitório e pedaços de tecido preto que separavam cada parte da “experiência”. As decorações consistiam em itens que você encontraria no mais chinfrim dos buffets infantis e alguns pôsteres que não correspondiam ao tamanho das paredes. 

No fim do passeio, as crianças recebiam algumas jujubas e um quarto de um copo de limonada – nada de chocolates nessa fábrica nada fantástica.

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Registro fotográfico do evento baseado no filme
Ao fim do passeio, as crianças recebiam um quarto de copo de limonada e uma jujuba – se tivessem sorte, ganhavam três. (Stuart Sinclair via Facebook/Reprodução)

Todos, claro, ficaram desapontados. Crianças saíram chorando de frustração, pais se sentiram enganados e até os funcionários ficaram decepcionados.

No sábado em que o evento começou, a polícia de Glasgow foi acionada por pais raivosos que exigiam seu dinheiro de volta – no site, a empresa afirma que não faz reembolsos. Apesar disso, a compania admitiu que seus planos “não se concretizaram”, pediu desculpas e disse que devolverá a grana dos ingressos.

Bastidores do fiasco

O caso ganhou projeção internacional e viralizou no X (ou Twitter, chame como quiser). Várias pessoas tiraram sarro da situação, da inocência das famílias que compraram ingressos, da cara de pau dos organizadores e do ridículo a que os funcionários tiveram que se submeter.

Em entrevista ao The Independent, Paul Connell, ator e comediante de 31 anos, contou sua experiência ao trabalhar no evento – e como tudo parecia extremamente desorganizado. Paul tinha a importante função de interpretar Willy Wonka e guiar as crianças pelas atrações do galpão. Ele conta recebeu a confirmação do emprego apenas dois dias antes, na quinta-feira (22).

Ao chegar no galpão pela primeira vez para ensaiar, na sexta-feira (23), ele percebeu que a experiência não ia entregar o que foi prometido. “De certa forma, era um mundo de imaginação, mas do tipo ‘imagine que existe uma fábrica inteira de chocolate aqui’”, conta.

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Paul expressou diversas preocupações com a decoração, mas ainda tinha esperança de que fossem solucionadas da noite para o dia. “Falei com as pessoas que o administravam e pensei, ‘com certeza pela manhã não vai estar assim’, e então apareci de manhã e estava assim.”

Registro fotográfico do evento baseado no filme

Kirsty Paterson, de 29 anos, fazia o papel de uma das Oompa Loompas na estação de jujubasn – como as balas eram escassas, ela distribuía três por criança. Mesmo assim, o doce acabou antes do fim do dia.

Em entrevista à Vulture, Kirsty disse que se candidatou para a vaga em um site de empregos que nunca tinha usado, mas que topou pelo dinheiro (500 libras pelos dois dias). Ela reclamou das fantasias, dizendo que pareciam extremamente baratas, quase usadas, e que não pareciam condizer com o valor dos ingressos. Outra Oompa Loompa disse que recebeu a peruca em uma caixa da Amazon, “que provavelmente tinha chegado pela manhã”.

Ambos os trabalhadores ressaltaram a preocupação em fazer aquele desastre organizacional ser minimamente divertido para as crianças – mas as circunstâncias não ajudaram

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“Quando chegou a primeira rodada de crianças… Não me entenda mal, ainda é um cenário incrivelmente e chocantemente ruim, mas fizemos nossas falas e tudo bem certo. Os atores com quem trabalhei são pessoas incríveis e isso não tem nada a ver com eles. Então pensei: vou dar meu melhor nisso”, afirma Kirsty. “Não sei de que outra forma você pode colocar granulado na m*rda, mas estávamos tentando ser o granulado na m*rda.”

“Todos os atores eram pessoas adoráveis. Nós nos reunimos pela manhã e dissemos: ‘provavelmente não vamos ser pagos por isso, mas as crianças ainda vão aparecer. Vamos tornar isso o mais mágico possível para eles’”, diz Paul.

Registro fotográfico do evento baseado no filme
(Stuart Sinclair via Facebook/Reprodução)

Mas nem todo o esforço do mundo poderia salvar a Willy’s Chocolate Experience. “As crianças ficaram bastante chateadas. Acho que elas estavam confusas. Mas foram mais os pais. Um casal mais velho me disse: ‘Eu realmente espero que você seja bem paga por isso’. E eu fui honesta e disse: ‘Estou bem perto de ir embora’”, conta Kirsty.

Um dedo de IA

Outra parte dessa história foi a adição de um personagem novo na clássica história: “o Desconhecido” (em inglês, The Unknown).

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“Há um homem cujo nome não sabemos. Nós o conhecemos como o Desconhecido. É um malvado fabricante de chocolate que vive nas paredes.” Esse é um trecho do roteiro dado para os atores antes do evento. 

No tour pela fábrica, o Desconhecido era uma pessoa vestida com uma capa preta, uma peruca longa e uma máscara cromada, que se escondia atrás de um espelho.

“Foi assustador para as crianças. Ele é um homem mau que faz chocolate ou o próprio chocolate é mau?”, disse Paul.

Os atores criticaram o roteiro da experiência – eles até chegaram a compará-lo com textos escritos por inteligência artificial. “O roteiro tinha 15 páginas de baboseiras sem sentido geradas por IA, em que eu ficava apenas em um monólogo sobre essas coisas malucas”, continua Paul.

IAs de texto às vezes cometem alguns deslizes – é não seria loucura supor que o roteiro teria sido criado com um robô que simplesmente inventou um personagem do nada.

Outra coisa que chama a atenção são as imagens de divulgação do evento. Em vez de fotos e vídeos da montagem ou de decorações, o site da experiência é preenchido por imagens claramente geradas por inteligência artificial – basta ver como a fonte das letras não é uniforme e até as palavras estão soletradas errado. Em um teste, Beatrice Nolan, repórter do Bussiness Insider, conseguiu gerar imagens semelhantes, apenas escrevendo comandos para uma IA.

Pois é. O chocolate dessa fábrica estava realmente estragado.

Duas imagens geradas por inteligência artificial que simulam o universo Willy Wonka.
As imagens usadas para divulgar o evento têm características típicas de imagens geradas por IA: palavras sem sentido, fontes inconstantes, objetos sem continuidade e luzes e sombras não naturais, por exemplo. (Montagem sobre reprodução (willyschocolateexperience)/Superinteressante)

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