Biologia de Duna: os vermes gigantes seriam possíveis na vida real?

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Diferente de outras obras de fantasia e ficção científica – em que há dragões, dinossauros e outros tipos de animais gigantes – em Duna existe uma criatura nada usual para esse tipo de história: um anelídeo. Uma das características mais marcantes criadas por Frank Herbert nos livros são definitivamente os vermes gigantes. 

Referenciados em toda a saga, os vermes de areia são parte fundamental do universo de Duna. Mas um animal desse tamanho seria possível no mundo real? Antes de responder a essa pergunta, vamos entender um pouco mais sobre como funciona a biologia desse grande bicho. 

O ciclo de vida de Shai-Hulud

Vistos como criaturas sagradas pelos fremen (o povo nativo de Arrakis), os vermes de areia, ou Shai-Hulud, são parte intrínseca de toda a ecologia e geologia do planeta. A produção da especiaria (ou mélange), tão importante para a geopolítica do império, só existe graças a esses animais. O mais curioso, entretanto, é que seu ciclo biológico é praticamente um paradoxo.

Os vermes podem alcançar tamanhos gigantescos, mas começam bem pequenos. Quase microscópicos, na verdade. O ciclo de vida dos vermes começa quando eles ainda são plânctons de areia. Esses plânctons se alimentam da especiaria na superfície  do deserto. Depois, eles submergem e se enterram na areia, entrando em sua fase de pupa.

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Durante seu estágio larval, os plânctons se transformam em “trutas de areia” (ou criadorzinhos, segundo os fremen), um estágio em que a criatura é metade animal e metade planta. É aqui que a especiaria que move todo o universo da saga começa a ser criada.

As trutas de areia misturam água com sua bile, produzindo uma massa de pré-especiaria. Essa massa se acumula sob a areia, e com a liberação de gases, aumenta a pressão e explode para a superfície. Essa massa, ao entrar em contato com o ar e o sol de Arrakis, vira finalmente o mélange.

Já as trutas de areia possuem dois destinos. Alguns morrem durante as explosões de especiarias, mas os sobreviventes se transformam nos colossais vermes de areia gigantes, num processo que dura centenas de anos. Quando adultos, podem atingir mais de 450 metros de comprimento, o equivalente a quatro campos de futebol.

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Um animal desse tamanho, entretanto, seria possível no mundo real?

A física de um animal gigante

Por mais legal que o Godzilla ou os vermes gigantes sejam, eles enfrentam um problema bastante difícil de ser superado no mundo real, e é justamente aquilo que os tornam tão legais: seu tamanho. 

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No universo ficcional de Duna, os vermes gigantes não possuem nenhum predador ou inimigo a sua altura. No mundo real, entretanto, as coisas são um pouquinho diferentes. Embora um animal desse tamanho pudesse até ser viável, tecnicamente, existem alguns desafios biomecânicos e fisiológicos que tornariam sua existência bastante improvável.

O primeiro deles seria o seu metabolismo e a produção de oxigênio. Os vermes não possuem pulmões, e obtêm o oxigênio através da pele (respiração cutânea, como lesmas, e alguns anfíbios). Para animais pequenos é bem fácil, mas, com um animal de 400 metros, a área é muito grande para conseguir absorver oxigênio e alimentar os órgãos do corpo inteiro. 

Nesse caso, os vermes gigantes podem ter desenvolvido uma espécie de pulmão ou outro tipo de sistema respiratório que os ajudasse a respirar. A Megascolides australis, encontrado na Austrália, é o maior verme do mundo, podendo atingir dois metros de comprimento. Uma de suas táticas de sobrevivência é a grande quantidade de hemoglobina no corpo, que o auxilia a manter o oxigênio quando está debaixo da terra.

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Um animal desse tamanho enfrentaria também sérios problemas de locomoção e sustentação do próprio corpo. Vamos pegar o maior animal do planeta Terra: a baleia-azul. Elas podem atingir mais de 30 metros de comprimento, e pesam mais de 180 toneladas.

Todo esse tamanho só é possível porque elas vivem nos oceanos, já que parte de seu peso é suportado pela água. Agora, imagine um animal de terra firme com 10 vezes o tamanho de uma baleia azul. Para suportar um peso tão grande, seria necessário desenvolver um sistema esquelético. Sem isso, em um planeta com uma gravidade similar a da Terra, como Arrakis, esses animais seriam achatados e esmagados pelo próprio peso.

Na terra, animais com o corpo mole, como os vermes nematódeos e anelídeos, possuem uma estrutura esquelética chamada de esqueleto hidrostático. Nesse tipo de estrutura, as cavidades ocas são preenchidas por fluidos que, sob uma pressão constante, auxiliam a manter a forma do corpo.

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Os vermes gigantes provavelmente teriam que ter um esqueleto interno similar ao das cobras. Isso ajudaria a explicar também o seu movimento, que não é ondulado como os vermes aqui da Terra, e sim em linha reta, similar ao das cobras

Ossos de cálcio não seriam suficientes para sustentar o animal e ainda possibilitar seu movimento. Talvez, se fossem feitos de outro tipo de material, a locomoção até poderia ser cientificamente possível. 

Mas, para movimentar um corpo tão grande, seria necessário músculos tão fortes quanto os ossos. Aqui entra um problema paradoxal para os vermes: a termorregulação. Ao se movimentar, o corpo libera calor, de forma que precisamos dissipá-lo para não superaquecer. 

Em um planeta árido, se movimentar geraria uma grande quantidade de calor internamente, que precisaria ser dissipado. Como fazer isso com um corpo tão grande e um planeta deserto? Por aqui, alguns animais suam, enquanto outros mergulham em rios e lagos para se refrescar.

O problema aqui é que além de Arrakis ser deserto, a água é tóxica e letal para os vermes. O que leva também a outro problema. Um animal como esse precisaria de água para sobreviver. Aqui na Terra, o único lugar onde não encontramos minhocas é no deserto, por exemplo.

Não tendo como dissipar o calor nem como se hidratar, seria bastante improvável que um animal como Shai-Hulud existisse na vida real. Então fique tranquilo – se esquecer de fazer os passos não ritmados na areia do deserto, você não vai atrair vermes gigantes.

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