Ataques em escolas: como falar do assunto com crianças

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Os ataques em escolas que ocorreram recentemente no Brasil causaram sentimentos de medo e angústia em muitas famílias brasileiras.

Desde 2002, o Brasil registrou 23 ataques premeditados em escolas, segundo estudo das pesquisadoras Telma Vinha e Cleo Garcia, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Grande parte dessas ações aconteceram nos últimos anos.

O Brasil Escola conversou com profissionais da saúde que compartilham orientações à família e responsáveis sobre como abordar esse assunto para crianças e adolescentes.

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Como abordar o assunto com crianças e adolescentes?

Para o psiquiatra Sávio Teixeira, a melhor estratégia é falar sobre o tema com serenidade, construindo um diálogo aberto e confiável. 

É interessante questionar se os filhos estão sabendo do assunto, e falar de maneira a contextualizar a questão sem entrar em detalhes, explica Sávio.

“É importante criar um ambiente para a conversa, se ater a forma como a mensagem precisa ser transmitida, que é com zelo, cuidado, cautela. Não podemos falar sobre o tema de maneira descuidada, desproposital.” – Sávio Teixeira, psiquiatra. 

Neste momento é essencial estabelecer um ambiente confortável para a conversa, deixando que seus filhos falem sobre o que estão sentindo. 

O psicólogo Bruno Farias destaca que é necessário saber o grau de entendimento dos filhos. No caso de crianças maiores e adolescentes, quando eles questionarem os pais sobre o que está acontencendo, é importante que os mesmos não se esquivem do tema.

Para o profissional, a esquiva não é uma resposta saudável, tampouco a transmissão dos próprios medos e aflições por meio de expressões como “o mundo está acabado” e “é o fim dos tempos”.

A forma mais adequada, de acordo com Bruno, é falar sobre o assunto de forma pontual. Dizer que aconteceu algo muito ruim, que todos estão abalados, mas que as escolas estão tomando medidas de segurança, que as pessoas estão se organizando para oferecer o melhor aos estudantes e para protegê-los.

A abordagem deste assunto deve envolver aspectos como a modalução da voz correta, no tempo e local adequados para conversar. “Dependendo do modo como nós nos comunicamos, podemos gerar traumas e comunicações indevidas”, pondera Bruno. 

Acolhimento e cuidado

A manifestação de sentimentos como o medo é natural em situações como as dos ataques em escolas, pontua Bruno. 

É fundamental que os pais e responsáveis acolham os sentimentos expressados pelos filhos, nunca invalidá-los, enfatiza o psicólogo. Apesar da melhor intenção pretendida pelos pais, as tentativas de invalidação são prejudiciais.

No momento do diálogo com os filhos é importante exercitar a empatia e o acolhimento. 

Crédito: Shutterstock

Bruno aborda a questão das fake news, muito presentes nesse contexto. Para ele o “repasse irresponsável de ameaças podem trazer consequências como o pânico e apreensão generalizável. Se não cuidarmos, isso pode se transformar em transtornos de ansiedade, em fobias, que podem afetar as crianças”. 

O acompanhamento profissional com psicoterapia é uma possibilidade para lidar com os sentimentos decorrentes dessa realidade.

“Precisamos lembrar que quando uma ansiedade, uma fobia, ou qualquer outro sintoma se apresenta, a demora em um tratamento especializado pode fazer com que esse quadro aumente, piore e cronifique. O auxílio de uma terapia especializada pode ser de grande valia.” – Bruno Faria, psicólogo.

De acordo com o psiquiatra Sávio, é importante observar como os filhos tem manifestado seus sentimentos em relação a este cenário.

Nesse sentido, é estar atento a possíveis alterações comportamentais, aos sentimentos pós-tragédia, e buscar sempre manter o diálogo, consolidando um canal de confiança entre pais/responsáveis e filhos. 

Confira: O que são as fake news

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Atenção aos consumo de conteúdos na internet

As dinâmicas familiares, segundo Bruno, tem demonstrado que as participações de um membro familiar na vida do outro estão cada vez menores, que cada um tem vivido seu próprio mundo.

Com isso, para ele, é necessário resgatar e fortalecer o hábito de diálogo na relação familiar. 

“Nós realmente precisamos voltar ao hábito de dialogar, nós precisamos ficar atentos ao que o outro tem a dizer. Termos acolhimento e empatia no diálogo. Em vez de julgar, é entender que se a criança está falando algo que é importante para ela, empaticamente isso quer dizer que é importante para mim também.” – Bruno Farias, psicólogo. 

Neste contexto, é necessário lembrar que as crianças são seres em formação. Isso quer dizer, que é preciso tomar cuidado com o que elas consomem na internet. 

O “acesso à internet pelas crianças deve ser dialogado e compartilhado”. A linguagem utilizada pelos responsáveis deve ser amena e responsável. 

O movimento deve ser de construir vínculos familiares contribuindo para o desenvolvimento de um ambiente seguro e o fortalecimento dos laços familiares, defende Bruno. 

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Por Lucas Afonso

Jornalista